Resíduo sólido na drenagem urbana

O resíduo sólido gerado pela população é contabilizado pela soma da quantidade coletada das casas e da limpeza urbana. Nesta equação falta um termo de difícil quantificação, que é o resíduo que fica depositado nas ruas, passeios e terrenos. Este resíduo acaba sendo levado pela água da chuva para o sistema de drenagem, entupindo os condutos e canais e proporcionando um visual deprimente nos rios urbanos (capa de Zero Hora de Porto Alegre no verão passado) ou como a figura abaixo.
A quantidade do resíduo que acaba na drenagem depende da eficiência com que a coleta nas casas (a média brasileira é de 0,74 kg/pessoa/dia) e a limpeza das ruas são realizadas e na educação das pessoas, evitando jogar no espaço público os resíduos. Os valores variam muito. Para os condutos este volume tende a ser acumulativo na drenagem, reduzindo a capacidade de escoamento dos canais. As cidades tendem a fechar seus condutos e canais (dificultando a limpeza) para facilitar os veículos e esconder este problema. Com a acumulação de resíduos, os condutos deixam de funcionar ao longo do tempo (análogo a circulação sanguínea que é entupida por depósitos de gordura) devido a falta de manutenção, a conseqüência direta é o aumento a freqüência da inundação na drenagem.
Os resíduos podem ser quantificados em volume ou peso. Alguns dados encontrados na literatura mostram que podem variar de 3 a 68 kg/hectar/ano dependendo dos fatores acima e do tipo de ocupação (comercial, industrial e residencial). Observa-se que nas vias de maior movimento e freqüência de pessoas a tendência é de aumentar.
Em pesquisa recente de doutorado sob minha orientação no IPH, Marllus Neves monitorou 8 meses a quantidade de resíduo que chegou na detenção do Parque Marinha do Brasil em Porto Alegre e estimou o total de resíduos que entrou nos condutos depois da limpeza urbana. A bacia ocupada (com população) tem da ordem de 1km2, com declividades altas, rede separadora, coleta e limpeza urbana consideradas eficiente. O total estimado que entrou na drenagem no período foi de 940 kg, e na detenção chegaram 288 kg, representando 30,6 % do que entrou. Observou-se que papel e plástico representaram na entrada da drenagem, respectivamente 39,1 e 42,1 % (soma de 81,2%) do total, mas na saída o papel representou apenas 0,8 % e o plástico 81,8%. Observa-se assim que a parcela de papel retido e diluído (provável) é de 38,9 % do total que entrou. Portanto fica retido, entupindo os encanamentos 30,5 % do total que entra (geralmente plástico).
As duas principais lições retiradas desta pesquisa são: (1) o plástico representa uma parcela superior a 80% e necessita de medidas preventivas como as adotadas em muitas cidades do mundo em restringir o uso do mesmo; (2) a limpeza urbana antes da chegada da chuva pode reduzir significativamente o total que chega na drenagem. Com a previsão meteorológica disponível basta o departamento de limpeza urbana utilizar a informação para programar a limpeza.
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Resíduo sólido na drenagem em Jaboatão – Pernambuco

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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