Na busca da drenagem urbana sustentável

As inundações que aparecem com grande freqüência no noticiário sobre várias cidades brasileiras, no período chuvoso, leva a todos a questionar o seguinte: Por que tem ocorrido um aumento tão grande destas ocorrências, será que não existe solução? Este impacto, apesar de danoso para estes locais tem produzido o benefício de chamar a atenção da população para as inundações urbanas.
Para transformar um espaço natural em urbano, são construídas áreas impermeáveis, sarjetas, bueiros, condutos que alteram o escoamento da água precipitada em direção aos rios. O ambiente urbano aumenta o volume escoado, a produção de material sólido como sedimentos e lixo e a piora da qualidade da água devido a lavagem das superfícies urbanas contaminadas.
Os engenheiros foram ensinados no passado a drenar a água da chuva o mais rápido possível rio abaixo. Este processo aumenta ainda mais as inundações pois o escoamento acelerado é amplificado, chegando a aumentar de 6 a 7 vezes com relação as suas condições rurais. Infelizmente temos ainda universidade no Brasil que continuam ensinando desta forma!!! (se você estiver numa universidade deste tipo questione seu professor e denuncie).
Nos países desenvolvidos como Estados Unidos e outros da Europa, Austrália, entre outros identificaram desde da década de 70 que era insustentável economicamente continuar acelerando o escoamento para jusante e aumentando os canais e condutos. A solução foi buscar amortecer a inundação gerada pela impermeabilização ou recuperar a capacidade de infiltração natural das áreas impermeabilizadas através de pavimentos permeáveis ou drenando o escoamento de áreas impermeáveis para superfícies permeáveis. Este tipo de ação trouxe como benefício a redução da vazão para jusante e a diminuição do diâmetro dos sistemas de drenagem. Uma detenção (reservatório a seco) pode retornar a vazão de cheia aos valores de bacia rural utilizando apenas de 1 a 2% da área drenada com custo da ordem R $ 40 – 80/m3, que representa de 1/3 a 1/10 do custo da canalização.
Atualmente a legislação destes países exige : (a) vazão de projeto de um loteamento ou lote antes e depois da ocupação deve ser a mesma, portanto o proprietário deve introduzir o dispositivo que desejar, mas não transfere para o sistema público de drenagem o efeito da sua urbanização; (b) toda a drenagem proveniente de áreas impermeáveis como telhados deve passar por filtros que permita a melhoria da sua qualidade da água e do aumento da infiltração; (c) a drenagem preserva os condicionantes ambientais naturais; (d) os bueiros dos loteamentos retém parte do lixo que chega na drenagem. Grande parte da preocupação destes países atualmente está no controle da qualidade da água pluvial que transporta metais e produtos químicos de lavagem das ruas. O controle quantitativo das inundações já ocorreu.
A realidade das cidades brasileiras é ainda distante deste cenário e um dos principais problemas reside na formação defasada de engenheiros e arquitetos que atuam no ambiente urbano e da falta de legislação que obrigue o controle deste problema. A maioria das cidades utiliza sempre o conceito de canalização dos trechos que trazem dois prejuízos: custo muito superior ao controle sustentável e aumento das inundações rio abaixo.
A cidade de Porto Alegre aprovou no seu Plano Diretor Urbano (em 2000) a necessidade de controle do escoamento em nível dos novos loteamentos e novos empreendimentos estão se desenvolvendo dentro deste novo conceito de controle da vazão máxima na fonte, com bons resultados. Em Campo no Plano Diretor que está sendo realizado foi proposto o controle da vazão, da qualidade da água e dos sedimentos. Infelizmente esta ainda não é uma prática na grande maioria das cidades do país.
A solução dos problemas atuais continua sendo por meio da construção de condutos e canais como se observa no conjunto de projetos aprovado no âmbito do PAC do governo federal e implementado pela Caixa Econômica Federal, apesar do programa se chamar ironicamente de “ drenagem sustentável”. A demanda dos municípios continua distorcida por falta de qualificação de projetos.
A solução deste problema passa pela modernização de todo sistema institucional federal, estadual e municipal, pois atualmente em quase todas as cidades o esgotamento sanitário, lixo e drenagem urbano são tratados separadamente sem uma coordenação adequada de ações, como se a realidade pudesse ser separada para que cada um resolvesse uma parte (nove mulheres não geram uma criança em um mês!!). Não existe mais espaço para planos independentes e isolados.
A busca de uma drenagem sustentável passa pela capacidade do poder público de legislar, cobrar e desenvolver projetos de controle, do ensino de engenheiros e arquitetos de novos padrões de projeto e de ensinar a população a contribuir para esta sustentabilidade através de ações e controles do dia da cidade.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. Francisco Gil Mortol Filho

    Oi td bem,
    moro em Ribeirão Preto, cidade do interior paulista que sofre com enchentes frequentes do ribeirão Preto, córrego que atravessa bairros e o centro urbano do município. Atualmente estou cursando Gestão Ambiental e escolhi como tema do meu TCC as enchentes nas áreas ribeirinhas deste córrego. Gostaria de saber mais sobre o sistema de drenagem sustentável como forma de controle de enchentes.
    Obrigado,
    Gil.

  2. Fatima

    Olá Professor!!
    Tenho acompanhado sempre que posso suas pesquisas, comentários, trabalhos desenvolvidos. Aqui em Recife, como o senhor bem conhece, temos dificuldade de obter dados sobre a drenagem das águas urbanas´. Há uma multiplicidade de ações pontuais que não resolve, o custo operacional de limpeza das galerias é alto e o que existe de dados são insuficientes. Temos procurado trabalhar com os indicadores de sustentabilidade do sistema mas é dificil, nem o SNIS conseguiu ainda dados reais.O senhor tem alguma sugestão sobre o assunto?
    Abraço!!

    Gestão se faz com informações, mas nem mesmo instituições temos para atuar em drenagem urbana. Nisto estou trabalhando e devo apresentar alguns texto sobre o assunto no futuro.

  3. zilda mello Oliveira

    Professor o que o SR tem sobre tecnologias polpadoras de agua e sistemas de fontes alternativas de agua?
    Quais as diretrizes que devemos seguir para a conservação de agua?

    Existem dois conceitos importantes: eficiência no uso da água, que são tecnologias que economizam o consumo de água e conservação da água que são atitudes por parte das pessoas em reduzir o consumo.

    A maioria das tecnologias de redução de consumo estão na indústria e cada qual tem suas características de reúso. No uso comercial existem equipamentos como sensores em banheiros públicos, banheiros com reservatório de volume reduzido ou com uso selecionado, chuveiros com redutores etc. Por exemplo, um chuveiro no teto reduz o consumo de água no banho em 20% se comparado com o o chuveiro na aprede lateral. que é sem dúvida o maior problema de perdas e ineficiência do uso da água. Existem também equipamentos para detectar o vazamento na rede de distribuição, que é o maior problema nacional. A perda média na distribuição da rede de abastecimento na redé no Brasil é de 40%. Existem cidades que chegam a 70% de perdas!!

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